corpo
corpo, 2025
È difícil localizar quando exatamente o efeito de luz surgiu, pois apareceu de forma inesperada. Mas algo naquele instante sucedeu trazendo a união: corpo e fenômeno. A conexão nasceu a partir do brilho refletido numa superfície metalizada que habitava o espaço acima do corrimão, onde o ar parecia se iluminar de um branco lunar. Ao me deslocar pela rampa em caracol que leva ao segundo piso da rodoviária, avistei a curvatura da barra de apoio para as mãos que refletia a energia da luz devolvida no espaço. A visível claridade na superfície prateada fosca era envolvida por uma névoa leve, fluida e cintilante. A clara luz que serpenteava o arco da trave se expandia no ar. Segui numa caminhada lenta até o fim da rampa, enquanto meu corpo sentia o compasso dos passos, nuvens se deslocaram para cobrir aquele brilho pulsante. Buscando uma atmosfera diferente, a mudança de direção na caminhada me levou ao vão central da rodoviária. Ao entrar na seção onde se compra a passagem havia muita gente na fila dos guichês: o som das conversas era intenso e os deslocamentos, ininterruptos. Como observadora de um lugar que acolhe: nos lugares calmos, vazios e sem função (onde as coisas descansam na sua imobilidade), e nos lugares agitados (onde as pessoas estão de passagem, a ir e vir) experienciei tanto ser possível exercitar o foco na energia mais sutil da mente, como também estabiliza-la em meio a ação e circunstância do tempo em constante movimento. Vivenciava deixar o corpo vagar sem pressa.
caminhada meditativa na rodoviária de Porto Alegre, orientação Maria Helena Bernardes