a água doce está em mim


a água doce está em mim, 2022-2024, vídeo 21’11”, apresentação no primeiro encontro lixo zero/ RS, Tecnopuc em 2025


Porque a água que flui na natureza segue sempre um curso sinuoso nos rios? Essa pergunta está comigo desde 2022, e sigo encantada observando o movimento das águas doces: as cadeias rítmicas, os redemoinhos, a superfície múltipla das correntes. Estar perto da água, ora imersa, ora mais próxima com a ajuda do celular e um bastão de self, permitiu estar longas horas em sua companhia. Para escutar sua sensibilidade, foi preciso viver a experiência de uma entrega, uma espécie de reencontro com a natureza que habita em nós, já que a água compõe cerca de 60% a 70% do nosso corpo. Aproximar-me da água no momento de capturar a imagem me ensinou que o corpo inteiro é povoado de olhos, o bastão permitia gravar bem próximo às correntes, e desta forma era meu corpo inteiro que capturava as imagens, não só o olhar, pois meu olhar não estava na direção do enquadramento da cena. Analisando as imagens de um grande número de arquivos com gravações de águas doces brasileiras capturadas ao longo de dois anos, posteriormente percebi que elas mostravam a natureza da água, a criação das formas por movimentos essenciais: a onda, o embate das cristas; o deslocamento contínuo que se repete, repete, mas é sempre outra coisa. Identifiquei estes padrões representados graficamente em pesquisa a respeito do movimento da água e os inclui na edição final do vídeo, como um tributo a Hokusai.


No percurso deste projeto, em busca de escutar o rio que não está confinado sob o cimento, buscava a potência da água doce que corre em comunhão com o céu, comigo, com todos. Havia um esvaziar-se de meu olhar em sua habitual procura por capturar um belo recorte da natureza. Na seleção das imagens finais encontram-se os rios e estados de: Lagoa do Peri, Lagoa da Conceição, Rio Pelotas, Rio dos Bugres/ Santa Catarina; Passo do S/ Rio Grande do Sul; Rio Paraibuna/ Parque Estadual Serra do Mar-núcleo Santa Virgínia/ São Paulo e Cânion Sussuapara/ Tocantins. Ir ao encontro dos rios, vivenciar a conexão com a água: órgão sensorial da terra, responsável por medir a ordem cósmica, que molda a superfície terrestre; selou uma aliança de afeto. Ao oferecer meu corpo a confluência das suas correntes, em respeito ao elemento água, procurei ouvir sua presença, esta escuta me direcionou na forma de editar dois anos de material capturado. O vídeo “o doce da água está em mim” de 21:11 minutos finalizado em 2024, tenta uma cadência rítmica de comportamentos, de calmaria e agitação das correntes, silêncio e ruído da água que se move ininterruptamente.