ao lado


ao lado, 2021


vídeo 6’55”


Há mais de trinta anos não atravessava a porteira da casa de meus bisavós. Naquela época, gostava de descer até o arvoredo, deitar embaixo da laranjeira, descascar e comer muitas laranjas do céu. Em 2021, acertei com os novos moradores para fazer umas fotos. Ao pisar nos escombros do terreno ouvi o som seco dos galhos caídos no chão. Logo que firmei a câmara no tripé senti passar pelo meu corpo um ar úmido e frio que vinha do passado. Da casa, só havia as paredes externas de pé, e alguma ou outra parte do alicerce. Uma inquietação surgiu quando olhei as rachaduras que o tempo de crescimento das árvores tinha aberto na alvenaria. O espaço ficou estranho e pesou quando vi que já não existiam: Sala, quarto, cozinha ou banheiro, e que apenas o tanque havia se conservado. Me assombra saber que a construção da nova casa tenha sido feita tão próxima dos restos da antiga. É perturbador morar a poucos passos daquela ruína onde duas casas convivem lado a lado, numa confusa relação tempoespaço. A vivência do passado enfrenta o presente e insiste em perguntar: onde pulsa a infância primordial, onde se encontra a coberta do céu.