falso fruto
falso fruto, 2024
fotografia digital e texto
Há dois dias vivo na companhia de uma maçã. Hoje a segurei na mão com cuidado e pude sentir as marcas de sua casca. São como cicatrizes que se apresentam numa mistura de linhas: finas, grossas; curtas e longas. A cor lembra o vermelho carmim e a orgânica disposição dos traços, uma pintura. Aproximei a maçã da luz do abajur e percebi com maior nitidez as irregularidades dos desenhos. Em alguns espaços as linhas pareciam manchas: percursos interrompidos, caminhos cortados, tempo em suspensão. Fecho os olhos, minha mão sustenta o peso da maçã. Os micro receptores sensitivos dos meus dedos sentem as ásperas saliências da casca. Apalpo sua estrutura firme e esférica e sinto uma depressão numa das extremidades. Afundo o dedo no sulco e o movimento da mão parece alcançar a cavidade oca do umbigo. No ímpeto da despedida, pego a faca e corto a maçã na transversal. Posso ver a polpa porosa, aguada e brilhante numa temperatura amarelo frio. Uma fruta suculenta. Na verdade, a maçã é um falso fruto, não se origina do ovário da planta, mas é gerada a partir do tecido vegetal próximo à flor. A maçã se abre em duas partes. Acolho um pedaço e vejo uma flor pentagonal sobre o tecido vegetal que sustenta o fruto verdadeiro. Ela guarda as cinco sementes dispostas em forma de pentagrama estrela. No quíntuplo é onde encontramos a proporção áurea. As profundas informações sobre os ritmos cósmicos. E na tradição chinesa os: cinco elementos, cinco sons e cinco sabores. Não como a maçã. Me alimento de experienciar o acontecimento.