manto
vídeo, 4’11”, do último dia da exposição, “manto” na Casa de Cultura Mário Quintana, sala Radamés Gnatalli e espaço anexo, 2025.
curadoria e texto Maria Helena Bernardes
Manto
A exposição Manto se divide entre dois ambientes. Podemos pensá-los em analogia com os espaços de uma casa que tem as portas abertas pela artista visual e fotógrafa, Cristine de Bem e Canto. A sala de estar, Galeria Radamés Gnatalli, tem o interior exposto por uma grande vitrine que nos convida a desfrutar da visita antes mesmo de cruzarmos a porta. A exposição se estende a uma segunda peça à direita da galeria. Dessa, nada antevemos, pois é uma salinha sem nome e tem a porta encostada. Cristine hospedou trabalhos distintos em cada recinto, oferecendo-os como criações independentes que habitam a mesma casa. Na galeria, as águas brasileiras e criaturas florais falam de um universo no qual a artista tem vivido imersa nos últimos anos. Cristine vem cultivando uma percepção da natureza como algo de que não podemos tomar distância, nem manipular separadamente de nossos corpos. “É impossível contemplar a natureza”, diz ela, “pois, para isso, precisaríamos tomar distância dela”. Em uma metáfora, seria como separar a cabeça de nosso próprio corpo na tentativa de contemplá-lo, mas apenas seguiríamos vendo-o incompleto e incoerente. A natureza que vemos é a que somos. Dentro ou fora de nossos corpos, existimos em continuidade comprometida com todo o resto. Imbuída desses sentimentos, Cristine absorve com a lente da câmera o corpo em fluxo do rio (rio novo, 2023); submerge a água na água para construir uma lembrança necessária e urgente (um dia, 2024); coleciona flores incriadas que surgem em um inventário fotográfico após tudo (inventário, 2023) e esculpe concretamente a transitoriedade do rio em dois poemas (2025). Desse universo pessoal, pulamos para uma dimensão perceptiva diferente. Passamos à sala ao lado. Ela está impregnada pelo trabalho do corpo e foi generosamente emprestada para o período desta exposição por um grupo de funcionárias da Casa de Cultura Mario Quintana. Ali, se oferece a possibilidade de um encontro entre o visitante, Cristine, Bispo do Rosário e o que não sabemos. Vemo-nos no espaço de uma cela onde imagens correm (ver é mover-se, 2024), sombras aderem às paredes (isto é, isto não é, isto é, 2025), um objeto materializa um cheiro (terminal, 2025) e nomes se adensam à margem de prioridades e correspondências. Há coisas que parecem existir desgarradas, como individualidades que ganham existência por repetição, sem alcançar uma totalidade. Essa sensação irrompeu fortemente quando Cristine e eu visitamos o acervo da coleção do Museu de Arte Contemporânea Bispo do Rosário, no Rio de Janeiro, em 03 de maio de 2024. Enquanto as águas subiam violentamente no Sul, submergíamos no mundo de cheiros, texturas e repetições de objetos apropriados, confeccionados e embalsamados por Bispo. Percorremos as instalações do museu sediado na antiga Colônia Juliano Moreira, no passado voltada a pacientes institucionalizados e hoje desativada, mas ainda frequentada por ex-residentes que passeiam, colaboram e recebem visitantes como nós. Foi um dia vertiginoso, assolado pelo contato inesperado com pessoas que habitam o mundo de forma tão diferente da nossa, com uma urgência de expressão marcadamente repetitiva. Encontrar o oceano de pertences trabalhados com primor por Bispo, neste contexto, foi tocante e instrutivo. Permitiu-nos vislumbrar que a arte é definitivamente uma esfera estranha ao que Bispo buscou e que ele jorrou, em meio à pura precariedade, sua não-arte como uma das expressões artísticas mais potentes que se pode testemunhar. É um conteúdo e tanto a ser processado. Saímos de lá emocionadas, pensativas e exaustas. Retornando à fala de Cristine, a natureza que somos carrega arte. Sabíamos, portanto, que viria por meio dela o contraponto ao golpe fragmentário e doloroso que nos impactou junto ao forte odor das coisas colecionadas e transformadas por Bispo na Colônia Juliano Moreira. Sem separar a cabeça do corpo, o corpo dos nomes e a folha do rio, entrelaçados por afetos em curso aqui e agora, deixemo-nos sentir e ficar.