sopro

sopro, 2019-2021


fotografia digital.


Cézanne estava dominado pela consciência mental, mas queria com todas as forças, escapar a seu jugo. Questionava a representação fiel ao modelo, fazendo-a em pedaços, não aceitava o clichê ótico. Na construção desta série fotográfica, procurei brincar com a perspectiva artificialis. Desobedeci as regras de funcionamento da caixa preta, modificando a lente monocular da câmara para uma, binocular.


Ao encontrar, no livro de História da Arte de H. W. Janson, a imagem em preto e branco do quadro A Ronda da Noite de Rembrandt, me chamou atenção a relação interdependente de sombra e luz que se encontra nos personagens da cena. Na pintura, ao mesmo tempo que um grupo aparece na penumbra, duas figuras luminosas surgem: O ajudante de campo do Capitão Banning Cocq e a menina que atravessa a cena. Compreendi que sombra e luz se complementam, trabalham juntas, não existem separadamente. A pintura mostra uma luz sem hierarquia, como se Rembrandt desse voz a obscuridade, fazendo-a surgir com direito próprio. a luz não mais protagoniza a cena.


Ao ver a pintura Blue Table-Cloth, me chamou atenção a forma como a imagem desconstrói a relação de subordinação da figura/fundo. O arabesco que ornamenta a estampa azul do tecido ao fundo é pintado com igual destaque aos três objetos do primeiro plano, temos dificuldade de diferenciar o que é figura ou fundo. Ao utilizarmos uma câmara fotográfica temos a opção do recurso automático modo retrato que resulta uma imagem oposta a de Matisse: hierarquizar o ponto de vista desfocando o fundo para evidenciar a figura.


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