terra

terra, 2024


fotografia digital e texto


Aprofundo a observação de um punhado de terra. Examino-o de perto. Ao aproximar a lupa, cheiro um solo ácido. Descubro partículas porosas médias de terra marrom, que se agregam a outras menores, de areia bege claro. Não há grande adensamento, nem mesmo brilho. A textura heterogênea e não uniforme é composta de areia e matéria orgânica: grama, folha, galho. Esfrego alguns grãos nos dedos indicador e polegar e minha pele sente a terra esfarelar pela falta de umidade. Só há água no interior do grânulo. Olho minha mão e vejo que ainda restam alguns grãos em meus dedos, penso na estabilidade da terra e no equilibro dos cinco elementos em nosso corpo. Na medicina tibetana, a morte se dá quando os lungs dos cinco elementos terra, água, fogo, ar e éter entram em colapso. A terra é a primeira a abandonar o corpo. Rememoro a morte de meu pai. Ao perder a solidez e a firmeza, não conseguimos mais ficar de pé. Meus sentidos incorporam a materialidade da terra e vivencio sermos todos participantes da conformação de gaia. O corpo assimila a densidade multiespecífica da terra e entrevejo na continuidade do ciclo mortevida meu corpo encarnar-se em flor. Um vir a ser alimento de outro ser.