torso

torso, 2022


fotografia digital 16x24cm e moldura 26×34,5 cm


livro companheiro: Corpos que importam, os limites discursivos do “sexo”, de Judith Butler.


 


Um torso não é uma pessoa. Nos vemos mais livres, nele, do que somos, quando nos apresentamos em nosso corpo absoluto (existirá corpo absoluto?). Diferente dos retratos de rosto, a expressividade do torso é opaca, contém mistério. Sem cabeça e membros, o recorte de carne, músculos e pele nos atinge com a força de um corpo íntegro e, dependendo de onde o observamos, os gêneros se movem, fluidos. Na tradição da escultura, onde foram presentes por séculos, houve torsos expostos como pedaços, beirando objetos. Ainda assim, mesmo sem os genitais, eram sensuais, por vezes, eróticos. (Em algum casos, porém, torsos não são nada). Na imagem que Cristine capturou em seu torso (2022), vê-se um corpo em pé, resultante da exposição de dois corpos, um homem e uma mulher, que, em sequência, pararam frente à câmera. A exposição longa imprimiu fantasmas de seios, pênis, espaldas e os esvaziou na luz, sem pousar a silhueta em uma ponta ou outra da linha que conecta homem e mulher. Cristine tem estado absorvida com desafios que não se sujeitam facilmente à resolução em uma imagem única. Por isso, ela fotografa dezenas de vezes um mesmo modelo – fotografa objetos, vegetais; fotografa a si própria – em sessões que podem se estender por horas. Entre os desafios assumidos por Cristine, um dos mais bonitos talvez seja o de buscar a equanimidade entre tudo o que é visível em cada imagem. “Que nenhuma forma seja mais importante do que a outra. Que nenhuma se imponha sobre  a outra”, ela repete para si mesma. Nenhuma forma de vida, nenhum gênero, nenhuma arte relegados ao fundo. Nenhum amor. “Estou em busca do caminho do meio”. No caso de Cristine, essa via talvez seja oferecida pela luminosidade e o tempo que absorvem e esparramam contornos e gêneros. Nas imagens, estamos equânimes: um e outro, pareados, sob a regência da luz.


Maria Helena Bernardes