um dia o rio parte

um dia o rio parte, 2024-2025


exposição Dobras de si, na Lovely House, São Paulo


 


livro o rio parte, papel vegetal 9x10cm; água e cipó da Lagoa do Peri/ Florianópolis; encadernação, Salete Santos; dezembro de 2024.


No livro o rio parte, a tentativa de apreender a memória da água despertou o processo de molhar o papel nas águas da Lagoa do Peri, em Santa Catarina, e esperar secar para ver as transformações na matéria. A água afeta o papel, deixa seu traço? No papel há o índice de sua existência? Qual a textura da água? Quais as mudanças quanto à rigidez, transparência e rugosidade no papel? Philippe Dubois, com o livro “O Ato fotográfico”, contribuiu para a minha reflexão sobre esses questionamentos ao escrever a respeito da fotografia como traço de um real. Sendo o índice representação por uma conexão física do signo com o seu referente, ele aponta um indício, um traço da existência de algo, mas nunca seu sentido. Já na escolha da encadernação que une os diversos blocos de folhas de papel vegetal foi utilizada a costura japonesa realizada com uma linha fina e o cipó encontrado no entorno da Lagoa do Peri. A partir de uma costura não contínua, a linha deixa solta as maiores curvas e entrelaçados do cipó, o que respeita o desenho original de quando ele caia da árvore. Buscando-se relacionar, nesta sequência de espaços, forma e significado: o território da lagoa está no livro.​


fotografias do livro o rio parte, Salete Santos.


 


​vídeo um dia, 3”33’, novembro 2024



 


Porque a água que flui na natureza segue sempre um curso sinuoso nos rios? Em 2022, iniciei minha pesquisa e sigo encantada observando o movimento das águas doces: os redemoinhos, a superfície múltipla das correntes. Então, foi uma escolha vivenciar imersões na mata; caminhar junto aos rios, lagoas, entregar-me às experiências sonoras de suas cadeias rítmicas; enfim: sentir o corpo na água vibrarem juntos. Para escutar sua sensibilidade foi preciso uma espécie de reencontro com a natureza que habita em nós, importante pensar que nosso corpo é composto de 60% a 70% de água. Como órgão sensorial da terra, responsável por medir a ordem cósmica, e moldando a superfície terrestre, a água, elemento fundamental da vida merece respeito. A partir da escuta atenta à biodiversidade, o vídeo um dia, ao questionar a perenidade da palavra escrita, nasce de uma frase fluida e efêmera e de um erro: na água, a frase “guarde bem para não esquecer que a água um dia existiu” que desvanece é resultado do engano na mistura dos químicos, há uma inversão no processo de revelação fotográfico, que se dá ao revés.