um dia o rio parte

um dia o rio parte, 2024-2025


exposição Dobras de si, na Lovely House, São Paulo


 


livro o rio parte, papel vegetal 9x10cm, água e cipó da Lagoa do Peri/ Florianópolis, dezembro de 2024. Encadernação, Salete Santos


No livro o rio parte, a tentativa de apreender a memória da água, a partir da observação de um fenômeno mecânico e visível, despertou o processo de molhar o papel nas águas da Lagoa do Peri, protegida como Monumento Natural Municipal. Situada em Florianópolis, no estado de Santa Catarina,  a lagoa abriga uma rica biodiversidade, própria da Mata Atlântica.

Durante a imersão das folhas de papel vegetal, era perceptível a formação de uma conexão física da água com o papel: algo o tinha afetado. E como o papel reagiu à água? O papel revelava o índice de saturação da água? Como a água deixou uma textura impressa no papel? Quais foram as mudanças quanto à rigidez, transparência e rugosidade nele?

A forma como a água interage com o papel, feito de filamentos vegetais de celulose, altera suas propriedades físicas. Há uma mudança significativa na transformação da matéria quando o papel é molhado e a água se expande abrindo espaços vazios microscópios extremamente finos entre as fibras.


Da mesma forma, quando a água evapora, novas ligações aleatórias se formam entre a estrutura da celulose, e o papel se contrai num rearranjo desordenado, trazendo uma nova forma mais ondulada à folha. Devido à vivência desse estresse, surge no papel uma espécie de cicatriz física, como se a memória da água deixasse um rastro.

Na junção dos diversos blocos de folhas de papel vegetal foi utilizada uma encadernação em costura japonesa onde a linha foi trançada e amarrada juntamente com o caule flexível do cipó que se encontrava enrolado nos troncos e galhos das árvores da Lagoa do Peri. A partir de uma costura descontínua e com interrupções, a linha deixa livre e não envolve algumas curvas mais acentuadas do cipó.


fotografias do livro o rio parte, Salete Santos.


 


​vídeo um dia, 3”33’, novembro 2024



 


Porque a água que flui na natureza segue sempre um curso sinuoso nos rios? Em 2022, iniciei minha pesquisa e sigo encantada observando o movimento das águas doces: os redemoinhos, a superfície múltipla das correntes. Então, foi uma escolha vivenciar imersões na mata; caminhar junto aos rios, lagoas, entregar-me às experiências sonoras de suas cadeias rítmicas; enfim: sentir o corpo na água vibrarem juntos. Para escutar sua sensibilidade foi preciso uma espécie de reencontro com a natureza que habita em nós, importante pensar que nosso corpo é composto de 60% a 70% de água. Como órgão sensorial da terra, responsável por medir a ordem cósmica, e moldando a superfície terrestre, a água, elemento fundamental da vida merece respeito. A partir da escuta atenta à biodiversidade, o vídeo um dia, ao questionar a perenidade da palavra escrita, nasce de uma frase fluida e efêmera e de um erro: na água, a frase “guarde bem para não esquecer que a água um dia existiu” que desvanece é resultado do engano na mistura dos químicos, há uma inversão no processo de revelação fotográfico, que se dá ao revés.